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Conta a lenda

Foto do escritor: Estandarte Angrense
Estandarte Angrense
9 de jan.
2 min de leitura
A Pantera de Minas
A Pantera de Minas

*Por Miro Lopes


O assassinato da Pantera de Minas, a socialite Ângela Diniz, voltou à berlinda em filmes, documentários e séries. Nascida em Curvelo (MG), Ângela casou-se aos 17 anos com o bem-sucedido engenheiro Milton Villas Bôas, então com 31. As produções concentram-se na desvairada vida social da jovem mulher, que levou o casal a se desquitar judicialmente, o que lhe garantiu a mansão onde morava, na capital mineira, e uma mesada, perdendo, entretanto, a guarda dos filhos.

 

Além de linda, Ângela era livre e louca — um comportamento considerado inadequado, até mesmo no Rio de Janeiro, para onde foi viver. Namorada de Ibrahim Sued, colunista de generalidades de O Globo, ganhou dele o codinome de Pantera de Minas. Acompanhando Sued à casa de Adelita Scarpa, figura da tradicional família paulistana, então casada com Doca (Raul Fernandes do Amaral) Street, foi quando Ângela conheceu seu futuro assassino.

 

Pouco depois, Doca abandonou a mulher e os filhos para viver com Ângela, o que resultou em quatro meses finais marcados por tumultos, ciúmes, agressões e excessos. Na fatídica noite de réveillon de 1976, em Búzios, balneário da Costa do Sol fluminense, após uma discussão, Doca saiu de casa, retornou empunhando uma Beretta e, depois de nova briga, disparou à queima-roupa: três tiros no rosto de Ângela e um na nuca. A pantera estava morta.

 

Em 1979, Doca Street foi a julgamento, marcado por um embate impactante — verdadeiro duelo de titãs — entre dois dos mais renomados juristas brasileiros: Evaristo de Moraes Filho, como assistente da acusação, e Evandro Lins e Silva, na defesa.

 

A repercussão do julgamento, sustentado na tese da legítima defesa, expôs o machismo e a violência contra a mulher. O argumento era de que Doca teria agido para proteger sua honra, supostamente ofendida por adultérios e provocações de Ângela, transformando o réu em vítima de humilhação extrema e a vítima em “Vênus lasciva” ou mulher fatal, que seduzia e dominava.

 

Contra a tese da defesa da honra, o promotor evidenciou o ciúme possessivo de Doca, sua violência prévia, a dependência financeira em relação a Ângela e a ausência de legítima defesa, argumentando que o réu matou por ódio e covardia, não por amor. O caso inspirou o mote dos protestos do movimento feminista: “Quem ama não mata”. Ainda assim, o réu foi punido com a concessão de sursis por dois anos.

 

Atendendo ao clamor popular, a promotoria recorreu da sentença e um novo julgamento foi realizado. Em 1981, Doca Street foi condenado a 15 anos de prisão por homicídio qualificado, embora tenha permanecido encarcerado por apenas três anos.

 

O que a lenda não conta

Evaristo de Moraes Filho notabilizou-se por defender processados políticos após o AI-5, incluindo os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e Fernando Collor, além de diversos opositores do regime militar.

Evandro Lins e Silva foi procurador da República e ministro do Supremo Tribunal Federal, onde julgou presos políticos, entre eles os governadores Miguel Arraes e Mauro Borges.

Após deixar a prisão, Doca Street lançou o livro Mea Culpa, com sua versão dos fatos, e viveu de forma discreta até os 86 anos.

 

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