Intolerância cultural e religiosa: O desafio persistente no Brasil

*Por Felipe Barbosa
As recentes notícias sobre figuras públicas que, por motivos pessoais ou religiosos, optam por não participar de manifestações culturais que exaltam as religiões de matriz africana evidenciam um desafio persistente na sociedade brasileira, a intolerância e o preconceito enraizados contra a cultura negra. A influenciadora Débora Peixoto, por exemplo, desistiu de desfilar no Salgueiro devido a um enredo que aborda temas afro-religiosos, alegando que isso "despertou traumas de infância". Em outro caso, a influenciadora Rafa Kalimann foi criticada por evitar cantar trechos de um samba-enredo que mencionam Exu, o que muitos interpretaram como um ato de intolerância religiosa.
Desde a chegada dos africanos ao Brasil, há uma tentativa contínua de erradicar suas práticas e culturas. A capoeira, por exemplo, foi transformada em frevo em Recife, e, quando não conseguem eliminar essas manifestações, há esforços para retirar o protagonismo negro, promovendo o embranquecimento dessas culturas. Um exemplo disso é a narrativa de que Zélio Fernandino de Moraes, um homem branco da alta sociedade, fundou a umbanda, uma religião de raízes africanas.
O samba-enredo é uma criação genuinamente negra, nascida nas comunidades afro-brasileiras. É natural que as escolas de samba celebrem seus ancestrais, os orixás e as entidades da umbanda, que são negros. Isso não deve ser esquecido. Manifestações como a capoeira, o frevo, a umbanda, o candomblé e o samba emergem da fé e das crenças de seus ancestrais.
O Terreiro do Caboclo Sobe Serra, fundado na década de 1960, testemunhou diversos momentos de preconceito e intolerância na sociedade. Em solidariedade às escolas de samba, reconhecemos que a luta é contínua. Vivemos em um país onde o racismo é velado; muitos afirmam não ser racistas, mas, na prática cotidiana, cometem atos de discriminação.
É essencial reconhecer e valorizar as contribuições da cultura negra para a formação da identidade brasileira. Somente através do respeito e da valorização dessas manifestações culturais poderemos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva e justa.
*Felipe Barbosa é pesquisador e Ogã do Caboclo Sobe Serra





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