Morre a escritora Marina Colasanti, entenda a sua relação com Angra
- Estandarte Angrense

- 28 de jan. de 2025
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A escritora Marina Colasanti morreu nesta terça-feira (28), aos 87 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas ela já vinha com a saúde debilitada. O corpo da escritora será velado no salão nobre da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na Zona Sul do Rio de Janeiro, na manhã de quarta-feira, dia 29, em cerimônia restrita a parentes e amigos. As informações são da Agência Brasil
Era casada com o poeta Affonso Romano de Sant'Anna e deixa duas filhas.
Marina Colasanti escreveu mais de 70 livros adultos e infantojuvenis e recebeu diversos prêmios por suas produções, incluindo o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras. No ano passado, foi homenageada como personalidade literária pelo Prêmio Jabuti.
Seu primeiro livro, Eu Sozinha, foi publicado em 1968. Em 2017, foi lançada sua última obra: Tudo Tem Princípio e Fim.
O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Marco Luchesi, ressaltou o caráter variado e "de altitude" da obra de Marina: "Foi mestra em todos os campos: no diálogo com a gravura, com a pintura, a poesia, o romance, a literatura infantil, as narrativas breves e as artes plásticas. O Brasil e a Itália perdem um de seus maiores nomes. E eu perco, certamente, uma das grandes e queridas amigas, no âmbito da literatura, e não apenas. Devo a Marina muitos passos que tomei, inspirações e partilhas culturais, poéticas.”
A Câmara Brasileira do Livro divulgou nota de pesar, solidarizando-se com a família, amigos e leitores de Marina Colasanti, "uma das maiores referências da literatura brasileira". A nota lembra que a escritora recebeu nove estatuetas do Prêmio Jabuti, "que evidenciam sua grande contribuição para a cultura e a literatura nacional" e celebra sua vida e obra, "que são um presente eterno para a cultura brasileira e mundial".
Nascida na cidade de Asmara, então capital da Eritréia, Marina também viveu na Líbia e na Itália, antes de emigrar com a família para o Rio de Janeiro na década de 40. Marina fazia parte de uma família de escritores e artistas e estudou na Escola Nacional de Belas Artes. Além de escrever, também ilustrou muitas de suas obras.
Ela trabalhou no Jornal do Brasil e na Editora Abril e continuou colaborando como colunista e cronista para diversos veículos ao longo de sua carreira. Também apresentou programas na extinta TVE e traduziu diversas obras italianas para o português.
Marina se declarava feminista e foi uma das integrantes do primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Muitos de seus livros refletem sobre o lugar da mulher na sociedade e trazem protagonistas femininas.
Em entrevista ao programa Trilha de Letras, da TV Brasil, em 2019, Marina falou sobre a paixão pelos livros, que nasceu na infância: "Os livros foram o meu colete salva-vidas. (...) Lemos muito! Em situações, às vezes, adversas, complicadas... E os livros eram uma farra! Companheiros de brinquedo, eram nossa fonte mais rica de imaginário".
Ela preferiu não se definir com apenas um estilo literário: "eu sou prosa e verso na mesma medida. Isso atravessa o olhar. Você tem um olhar poético ou não tem um olhar poético. É a maneira de aproximar-se do mundo. E eu acho que eu tenho os dois.”
Relação com Angra dos Reis
Em sua rede social, o radialista Nilo Sérgio compartilhou uma lembrança sobre a relação da família da escritora com Angra dos Reis.
"Filha de Manfredo Colasanti, ator, e irmã do ator Arduino Colasanti, sua família era proprietária da Fazenda Pedra Branca, que hoje pertence à Valle Sul. Lembro que Manfredo vendia leite em uma Rural azul, estacionando ao lado da Matriz, onde meu pai e Mantegão tinham o Bar Matriz. Ele sempre me chamava de 'Bambino'", publicou o radialista. Em uma publicação em seu site, há dez anos, Marina falou sobre a cidade de outrora
Em Angra, entre dois tempos
Marina Manda Lembranças
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015 (https://www.marinacolasanti.com/2015/01/em-angra-entre-dois-tempos.html)
Passei o fim de semana em Angra. O passado, como um cavalo, me puxava para um lado. O presente, com seus motores, insistia em levar-me para o outro. Atender ambos exigiu um certo empenho interior. Voltei refrescada de mar por fora, sensibilizada por dentro.Meu pai teve uma fazenda em Angra dos Reis. Chamava-se Pedra Branca. Isso foi muito antes que existisse a nova estrada. Íamos pela antiga Rio/São Paulo, embicávamos antes de chegar a Barra Mansa, subíamos a serra, vencíamos três pontos culminantes — esses e só esses pavimentados de paralelepípedos — descíamos em Lídice, comprávamos um famoso queijo, e em algum momento chegávamos à fazenda. Nada ao redor. O mar estava a 11 quilômetros.O mar, neste fim de semana, esteve o tempo todo diante dos meus olhos. O mesmo mar, mas outro. Sempre foi verde e manso o mar na Bahia da Ribeira, sempre se apoiou em silêncio nos costões, refletindo a vegetação. Continua verde e manso, mas o namoro com a costa foi rompido por casas, condomínios, deques e ancoradouros que não param de se multiplicar. E o silêncio foi sequestrado pelas lanchas.Meu amigo, dono da casa onde estive este fim de semana, acaba de voltar de um congresso nos EUA. Um congresso de modernidade, cheio de robôs e equipamentos eletrônicos, de máquinas e de programas que fazem coisas com mais rapidez e eficácia que os humanos. Falamos disso uma noite, de como os computadores estão mais precisos nos diagnósticos médicos e nas análises laboratoriais do que os médicos, de como em alguns países a lavoura está toda mecanizada. De como esse processo avança veloz.Com meu pai, íamos à cidade fazer compras de comida, tomar um café ou uma cachaça, ver gente. Que bonita era Angra! Os dois conventos, a rua principal toda de sobrados antigos, daqueles de sacada em ferro batido e abacaxis nas beiradas. Começava o comércio a estragar o conjunto, mas apenas começava. E era bom caminhar até o porto, ver as traineiras ondeando suas cores. Angra guardava seu coração antigo.Era esse coração que ainda batia no tempo dos campeonatos de Caça Submarina. Parecia então que o Argos havia atracado no porto, a cidade tomada por aqueles homens bonitos e jovens, queimados de sol, por vezes louros. E na pesagem dos peixes, penduravam-se nas correntes os meros imensos como mitológicos monstros marinhos. Meu irmão era um dos argonautas dessa cena, e íamos a Angra em bando, algumas vezes voltando ao Rio de traineira em fim de tarde quase escuro, envoltos nas japonas.Neste fim de semana não vi nenhuma traineira cruzando o mar com as lanchas. Nenhuma traineira poitada diante dos deques. E no entanto, muitos anos depois dos campeonatos, um casal amigo que tinha uma casa na ilha da Gipóia, ainda preferia usar uma traineirinha para se deslocar até o continente. Vi, isso sim, uma ilha completamente despida da sua vegetação, recoberta de gramados e canteiros como um jardim francês do século XVIII. Parecia uma bolsa Vuitton na paisagem.Durante esses dois dias, o passado me puxou de um lado, a modernidade do outro. Meu amigo me contava que caça bois perdidos, em sua fazenda, com um drone conectado a três satélites, câmara ligada diretamente no celular, um raio de alcance aéreo de 300 metros. E olhando o mar à minha frente eu pensava na Angra que conheci quando a estrada ia até Mangaratiba, e de lá se pegava a lancha para chegar à Ilha Grande.





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