Pesquisa propõe resgate da filosofia Yorùbá e questiona interpretações coloniais sobre culturas africanas
- Wagner Rodrigues
- 28 de jul.
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Uma pesquisa desenvolvida pelo filósofo, pesquisador e Bàbálórìṣà Olùkọ́ Bàbá Ọ̀nà Oosatúnmiṣe Adisá, nome religioso de Carlos Henrique Veloso, propõe uma revisão profunda das interpretações ocidentais sobre a cultura e a filosofia yorùbá. Intitulado "Isso Não É Aquilo", o estudo sustenta que conceitos fundamentais da tradição africana foram modificados ao longo dos séculos por traduções influenciadas por perspectivas cristãs e eurocêntricas.
A pesquisa parte da análise da língua yorùbá para argumentar que missionários, etnólogos e estudiosos que documentaram essas tradições, especialmente a partir do século XIX, introduziram interpretações incompatíveis com a cosmologia original. Segundo o autor, conceitos como "pecado", "inferno" e a ideia de um "Deus Supremo" nos moldes do cristianismo passaram a ser associados às religiões de matriz africana, apesar de não fazerem parte da estrutura filosófica tradicional yorùbá.
Para enfrentar esse processo, o pesquisador apresenta o conceito de "desaprendizagem", definido como um exercício de desconstrução dos referenciais coloniais incorporados ao longo da história. Em vez de seguir uma estrutura acadêmica convencional, a obra adota o formato de ensaio baseado na "escrevivência", reunindo reflexão filosófica, experiência pessoal e saberes ancestrais.
Como parte dessa proposta, o autor apresenta o método denominado fetísílẹ̀, expressão que remete ao gesto simbólico de colocar o ouvido no chão para escutar os ensinamentos da Terra e dos ancestrais. Para Adisá, esse movimento representa uma alternativa às bases do pensamento cartesiano, priorizando a experiência comunitária e a ancestralidade como formas de produção do conhecimento.
Entre os principais pontos desenvolvidos na pesquisa está a reinterpretação da figura de Èṣù, frequentemente associada, segundo o autor, a conceitos cristãos como o diabo. A tese sustenta que, na tradição yorùbá, Èṣù representa o princípio dinâmico da existência, ligado ao movimento, à transformação e à expansão da realidade.
Outro aspecto abordado é o significado da palavra ọ̀lẹ, normalmente traduzida como "preguiça". Com base em uma análise filológica, o pesquisador defende que o termo se aproxima da ideia de "fruição do ócio", entendida como condição para a contemplação, a criatividade e a produção do conhecimento, em sentido semelhante ao atribuído ao ócio em outras tradições filosóficas antigas.
A obra também apresenta o conceito de "ser-aqui" (Níhínyí), segundo o qual o ser humano não deve ser compreendido como um indivíduo isolado, mas como uma narrativa viva construída em continuidade com seus ancestrais e com a comunidade. Nessa perspectiva, cada pessoa já nasce vinculada a um propósito existencial e realiza sua trajetória por meio das relações estabelecidas ao longo da vida.
De acordo com o autor, a pesquisa busca contribuir para o fortalecimento de uma perspectiva decolonial, incentivando pessoas africanas e afrodescendentes a produzirem suas próprias interpretações sobre sua história, espiritualidade e filosofia, sem a mediação de categorias impostas pelo pensamento colonial.
Carlos Henrique Veloso possui formação em Filosofia, Psicologia e Teologia, atua como educador e é Bàbálórìṣà do Ilé Àṣẹ Òkè Okùtá (Casa de Ọbàtálá). Seu trabalho concentra-se na pesquisa da filosofia yorùbá e no ensino da língua e da cultura africana, articulando o conhecimento acadêmico aos saberes tradicionais dos terreiros.

