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Dona Luzia: A rezadeira que deixou marcas de fé e cura em Angra

  • Foto do escritor: Wagner Rodrigues
    Wagner Rodrigues
  • 11 de jan. de 2025
  • 3 min de leitura

A história de uma mulher iluminada, seus dons espirituais e sua contribuição para a memória afetiva e cultural do bairro Belém
A história de uma mulher iluminada, seus dons espirituais e sua contribuição para a memória afetiva e cultural do bairro Belém

Por Carlos Eduardo Silva*


Dona Luzia e seus dons de cura


A rezadeira de todos

Há muitos anos, no bairro Belém, floresceu uma família com dons especiais, liderada por sua matriarca, pequena em estatura, mas gigante na força espiritual: dona Luzia Dias da Rosa, ou simplesmente dona Luzia.

Dona Luzia atendia a todos que precisassem de suas orações, independentemente de classe social ou crença: pobres, ricos, religiosos ou ateus. Bastava acreditar em suas rezas baseadas na fé cristã católica.

Ela teve sete filhos: Silvana (que tive o privilégio de conhecer, mas que já nos deixou), Luiza (que me forneceu várias informações), Paulo, Pedro, Sônia, Andréia e Silvia. Seu esposo era Pedro Adolfo Rosa, e seus sogros, Hercílio Diniz Rosa e Benedita do Rosário, pertenciam a tradicionais famílias caiçaras.

Lembro-me com carinho das sessões de rezas e bênçãos que ela realizava para o meu pai, lá mesmo no bairro Belém. Meu pai sempre saía aliviado e feliz. Dona Luzia também trabalhou em nossa casa, no centro de Angra, como diarista, e era, na verdade, como uma parente muito querida.



Luzia, a iluminada

Filha de Veriato Benedito Dias e Maria Luiza da Conceição, ambos descendentes de antigas famílias angrenses, dona Luzia demonstrava seu dom de cura e conselho desde criança. Era considerada especial pelos moradores da região.

O bairro Belém, situado na região da Japuíba, possui uma história antiga e rica, que muitos desconhecem. Sua igreja católica remonta ao século XIX, com quase 200 anos de existência, e há também uma monumental estrada de pedras construída por escravizados. Essa estrada, recentemente registrada por nossa equipe, era usada por tropeiros, viajantes, barões e até para o transporte de ouro e pedras preciosas. Ligava a região até a atual Lídice e seguia para o Vale do Rio Paraíba.

As rezadeiras do Brasil, como dona Luzia, eram mulheres de honra e sabedoria. Combinavam conhecimentos de fitoterapia com dons espirituais e, muitas vezes, eram parteiras, líderes comunitárias e conselheiras de famílias. Exerciam esses papéis nas horas vagas, após os afazeres domésticos e da agricultura.


As orações

Segundo Silvana, que contribuiu para esta pesquisa, dona Luzia tinha métodos específicos para tratar diferentes males.

Quebranto: Um mal-estar comum em crianças, caracterizado por torpor, falta de apetite, crises depressivas, febre e bocejos constantes. O ritual era assim:

Com um pouco de leite materno em um prato ou pires e casca de alho, ela fazia o sinal da cruz na testa da criança, invocava a Santíssima Trindade e, com a criança de cabeça para baixo, orava em voz baixa. Após a oração, a criança saía brincando, cantando e com apetite renovado.

Espinhela caída: Possivelmente correspondia a problemas de coluna, artrose ou inflamações musculares. Ela recitava o seguinte:"Espinhela caída, sai desse lugar,assim como Jesus Cristo está no Seu altar.Três maiores no mar, três missas de Natal.Espinhela caída, sai desse lugar."Em alguns casos, a pessoa era orientada a se pendurar na soleira da porta para completar o tratamento.

Destronco (luxações, fraturas, torções): O método era impressionante. Usava-se uma vasilha com água fervente, uma tesoura aberta e um pente sobre uma bacia metálica. A água se movia misteriosamente para a bacia, e o paciente sentia um calor no local da dor, como se os ossos ou músculos se alinhassem. O alívio era imediato.

Pessoas atendidas por dona Luzia costumavam oferecer doações espontâneas, como dinheiro, frutas ou doces caseiros, em forma de gratidão.


Um resgate da memória afetiva

Este artigo busca resgatar a memória de dona Luzia, uma angrense querida por gerações, cujo legado de amor e dedicação permaneceu adormecido por pelo menos 30 anos. Nossa intenção é valorizar a história de alguns bairros e de suas personagens reais, mas ao mesmo tempo, quase etéreas.

Agradeço especialmente à Luiza, que foi amiga quase irmã de minha madrinha de batismo, a saudosa Lú Queiroz. Mas essa já é outra história...

Luz para todos, dona Luzia!


*Carlos Eduardo Silva é professor Licenciado em História e presidente do Instituto de Pesquisa História e Arqueológica de Angra dos Reis (IPHAR)

 

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